Crescer com dinheiro definitivamente era uma benção desmedida, afinal ter um literal berço dourado era como seu destino sendo ditado desde a sua concepção. Byul tinha os passos escritos até o fim de sua vida, um aviso de que sua vida não lhe pertenceria até o seu fim.Um pobre garoto rico.Mas nem sempre as coisas precisam ser pesadas e martirizadas. Byul cresceu como uma criança amada, tinha todos os tipos possíveis de atividades extracurriculares, não só as determinadas por seu pai, mas também as que ele mesmo queria. Piano, violino, futebol, taekwondo, dança, natação, equitação… qualquer coisa que ele quisesse, ele teria, desde que fosse um menino obediente, e Byul era, sempre foi.Não convivia com o pai, quase não o via durante a semana porque o homem saía muito cedo e voltava muito tarde para casa, mas sentia a presença do genitor em cada centímetro de seu lar, como uma presença permanente que vigiava tudo e todos a todo segundo. Sua mãe, por outro lado, era a pessoa mais bondosa e carinhosa que podia conhecer e era sempre ela quem intercedia por ele a respeito das regras rigorosas que o pai impunha sempre. Então era isso, a vida de Byul era feita de equilíbrios, enquanto a mãe o amava e o protegia como seu bem mais precioso, seu pai também fazia… ao modo dele, afinal Byul era um bem precioso a longo prazo, era ele quem iria carregar o nome da família quando fosse o momento adequado, certo?Bem…Byul gostava da sua vida, apesar do pai ser um poço de indiferença e nada carinhoso, ele não queria o decepcionar, mas ao mesmo tempo tinha seus próprios almejos e quando se deu conta de que queria ter suas próprias escolhas, as coisas começaram a ficar um pouco complicadas em casa. Quem diria que um ser humano em plenas faculdades mentais teria as próprias escolhas, não é mesmo? O pai de Byul não estava esperando que o filho fosse pensar por si só, queria uma marionete, coisa que o filho definitivamente não era.Ainda assim, mesmo com os embates em casa, Byul mantinha sua personalidade brilhante e suas paixões renovadas. Gostava de ler, descobrir coisas engraçadas e diferentes, armazenar uma quantidade grande de informações aleatórias que provavelmente nunca usaria, mas que claramente era boas pra iniciar assuntos numa conversa descontraída. E era por isso que vivia cheio de amigos em volta de si, não por “popularidade” propriamente dita, mas porque ele gostava de conversar com qualquer pessoa que lhe desse o mínimo sinal de que estaria aberta, o que lhe rendeu o apelido de matraca na escola.Foi na escola também que descobriu sua paixão por patinação no gelo.Paixão essa que veio devagar porque o garoto quis desistir na primeira queda, mas a instrutora insistiu um pouco mais, sempre dizia que na próxima queda ele podia parar e dessa próxima passava para outra próxima, e aos pouquinhos as quedas já não vinham mais como antes e o barulho da lâmina deslizando no gelo passou a fazer sentido na sua cabeça movimentada e barulhenta. Quando está na pista, tomando velocidade, ganhando confiança, sua mente se esvazia e o fato de se concentrar somente em não quebrar um tornozelo ou cair de cara no gelo é definitivamente perfeito pra alguém que vive pensando em tudo.No entanto ele nunca quis ser um atleta de alto nível, mas ainda assim era muito bom, o suficiente para começar a ganhar competições pequenas e escolares e ir escalonando aos poucos conforme ele ia envelhecendo e foi nessa mesma onda que seu rosto passou a se tornar “famoso” na internet. Ora, Byul é bonito e todo mundo sempre soube, um rostinho bonito muito bom no que faz, ainda mais um esporte que chama atenção justamente pela beleza, claro que traria holofotes para si e, claro, para a família.Não que ele se importasse muito, afinal ainda era algo que gostava, então seguiu com as competições e treinos rigorosos buscando suas melhores marcas pelo menos no que tangia as competições escolares e regionais.Aos dezesseis anos, numa queda, Byul quebrou o tornozelo. Foi uma lesão grave, praticamente pôs fim na sua carreira de atleta e sua tão sonhada vaga no time olímpico e definitivamente foram meses sombrios para o garoto que nunca quis aquela responsabilidade em si, que só queria patinar para se acalmar e que agora tudo o que gostava tinha perdido todo o sentido.Mesmo com as cirurgias caras e tratamentos importados, Byul não poderia mais ser um atleta olímpico e para ele acabou virando um alívio porque pode voltar a patinar sem tanta pressão em cima de si, ainda era muito bom e ainda tinha um nível elevado depois de todos os anos se recuperando, bom o suficiente pra conseguir uma vaga na grande SNU.Competir pela universidade era gostoso, de certo modo, trazia a adrenalina boa de volta e lhe dava um objetivo claro, ao mesmo tempo conseguia seguir sua vida de estudante como qualquer outro e não tinha mais a pressão do pai em suas costas. Byul às vezes pensava que a lesão foi tipo a sua salvação e assim segue feliz com esse pensamento.